A existência do inferno contradiz a Infinita bondade de Deus?
DANTE'S INFERNO, c1520. Woodcut from a Venetian edition of the Divine Comedy, c1520.

Não. Mas, não deixa de ser uma pergunta incômoda. Como Deus, infinitamente amoroso, pode condenar uma alma ETERNAMENTE às penas do inferno?

Mas é justamente por ser o Amor Infinito que se exige a condenação eterna das almas réprobas e pecadoras. Como escreve o Pe. Royo Marín, é por causa do amor de Deus que não se pode conceber o perdão daqueles condenados ao inferno.

Um pedaço do poema de Dante Alighieri talvez nos ajude a compreender melhor a lógica dessa afirmação. Na porta do inferno, Dante colocou a seguinte inscrição: “Fez-me a divina Onipotência, a suprema Sabedoria e o primeiro Amor”. O Primeiro Amor fez o inferno. Duro, não?

Deixo ao leitor uma piedosa reflexão do dominicano Pe. Lacordaire:

Dante pôs sobre a porta de seu Inferno esta famosa inscrição: Ó vós que entrais, abandonais toda a esperança. Mas, por que abandonar toda a esperança? Por que, justamente num lugar onde a bondade Divina deve estar, posto que é inseparável de Deus, é preciso abdicar de toda a consoladora perspectiva, por mais longínqua que fosse? O poeta nos explica num verso que eu não posso recordar sem um estremecimento de admiração: Fez-me a divina Justiça e o primeiro Amor. Se fosse unicamente a justiça que tivesse aberto o abismo, ainda teria algum remédio; mas é também o AMOR, o primeiro amor, que o fez: eis aí o que suprime toda a esperança. Quando alguém é condenado pela justiça, pode recorrer ao amor; mas quando é condenado pelo Amor, a quem recorrerá? Tal é a sorte dos condenados. O amor que deu por ele todo o seu sangue, este mesmo amor é o que agora os maldiz; (…) Teria Deus vindo aqui por nós, teria tomado nossa natureza, falado nossa língua, apertado nossa mão, curado nossas feridas, ressuscitado nossos mortos; teria um Deus se entregado por nós às injúrias da traição, deixado atar a uma coluna, despedaçar com açoites, coroar de espinhos; teria, enfim, morto por nós numa cruz, para que depois de tudo isso pudéssemos pensar que nos é lícito blasfemar e rir, e caminhar sem temor algum, a desposar-nos com todas as abominações? Oh não!! Desenganemo-nos! O amor não é um jogo. Não se é amado impunemente por um Deus, não se é impunemente amado até a morte de cruz. Não é a justiça que carece de misericórdia; é o amor mesmo que condena o pecador. O amor – temos experimentado demasiadamente – é a vida ou a morte; e, se se trata do amor de Deus, é a vida eterna ou a eterna morte”.

Não podemos deixar de concluir com o Pe. Royo Marín:

“Deus não castigaria tão terrivelmente o pecador se não tivesse amado tanto; se não tivesse cometido a loucura de morrer por ele numa cruz”.

Leonardo Penitente, advogado, professor universitário, autor. Casado com Sabrina e pai de Pedro, Mateus e Helena.

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