Como um católico deve se posicionar em relação à política?

Para começar a responder a essa pergunta é necessário compreender que há uma essência na Doutrina Social da Igreja (DSI), que é como sua “cláusula pétrea”: a subordinação de toda a prática (práxis) à Moral. A DSI deixa claro que toda a práxis, seja ela social, política ou econômica, deve antes de tudo estar subordinada à Moral Católica. É partindo dessa premissa que podemos construir critérios para uma escolha mais correta dos nosso governantes, bem como uma fiscalização mais justa de um governo.

Partindo da premissa anterior, podemos então afirmar que a moral sempre se sobrepõe à práxis. Para facilitar o entendimento vou substituir a palavra “moral” pela palavra “valores”. Assim podemos dizer que os valores se sobrepõem à práxis. Toda vez que você vê alguém discutindo práxis e não discutindo valores ou os subordinando à práxis, dando a entender que a práxis não está subordinada aos valores e, muito pelo contrário, são os valores que devem estar subordinados à práxis, essa pessoa simplesmente não pode ter o voto de um católico e ponto final, não há discussão. A pessoa pode ser extremamente prática, mas se não há uma clara defesa dos valores e a práxis como fruto desses valores, essa pessoa não merece o voto católico.

No Brasil, há um bom tempo, não se observa a subordinação da práxis aos valores na maioria esmagadora de nossos candidatos e governantes. O meio político atual no geral não discute valores; discute práxis: práxis social, práxis política, práxis econômica.

O grande problema da maior parte dos políticos brasileiros, seja de esquerda ou de direita, é que o que existe é uma primazia da práxis sobre os valores. Na direita, com o discurso “liberal”, tem-se práxis econômica onde os valores estão subordinados à economia e há também uma práxis reacionária, onde os valores estão subordinados ao efeito de reação que eles geram e que se almeja ao utiliza-los contra a esquerda (e não a primazia dos valores em si mesmos). Na esquerda é a práxis social, política e/ou revolucionária, onde os valores estão subordinados ao fim revolucionário que almejam e também não a primazia dos valores em si mesmos. Em ambos os casos o que se vê é a concretização de um famoso ensinamento atribuído a Maquiavel de que os fins justificam os meios, o qual é frontalmente contrário à premissa da DSI de que os meios estão antes de tudo subordinados à moral (ou aos valores), para que o fim seja sempre o bem.

Como enfrentamos essa situação lastimável de termos em quase totalidade candidatos e governantes que subordinam valores à práxis, temos que escolher, no meio desse grupo, pelo menos o candidato que traga à discussão alguns valores essenciais à Fé Católica. E para a Igreja Católica o essencial dos valores está muito claro: o “Direito Humano” fundamental a qual todos os outros “direitos humanos” estão subordinados, e qual é o Direito Humano fundamental? Ele está detalhado no Compêndio da DSI e no Catecismo da Igreja Católica (CIC), e está na essência da moral católica: O Direito Humano fundamental é o direito à vida desde a concepção até a morte natural, sobretudo a proteção especial da vida do inocente e o aborto tem sua particular importância. (cf cân. 155 e 570 do Compêndio da DSI). Na Igreja Católica isso é pétreo. Qualquer pessoa que defenda qualquer direito humano, mas não defenda esse direito humano fundamental, corrompe todas as outras defesas dos direitos humanos que faça. Torna-se basicamente imoral, não podendo ser digno de confiança e muito menos do voto de um católico e se já é governante, deve sofrer por parte de todo católico a fiscalização firme de sua práxis para não permitir que esse direito humano essencial seja violado no país por laxismos morais do governante.

É importante que um político tenha visão prática, porém não deve limitar-se a ela. Por mais que se diga que um candidato não vai conseguir governar por possuir limitações de práxis política, dado seu posicionamento destoante da maioria de sua classe, um católico não pode, por nenhuma razão, negociar valores inegociáveis.

A pergunta que surge naturalmente daí é: se tenho que votar em um candidato o qual suspeito não conseguir governar dado seu posicionamento destoante da maioria de sua classe política, exatamente por buscar subordinar a práxis aos valores, que sentido tem esse voto? O sentido está exatamente naquilo que em nós católicos deve ser o diferencial: a Fé.  Se todos os católicos tivessem essa consciência e votassem no candidato acima de tudo pela fé, pela moral, utilizando antes de tudo os critérios dos valores e com a primazia do Direito Humano Essencial, seria um voto subordinado aos critérios divinos, onde Deus assume o poder que Lhe é de direito, pois o poder não emana do povo, mas sim de Deus. Mesmo que não seja um candidato do “coração de Deus”, pelo menos foram utilizados critérios teológicos, divinos, morais por parte do povo para a escolha. A partir do momento que um cristão usa esses critérios, ele está diretamente mostrando que acima de tudo está Deus. A partir do momento em que o voto de um católico é realizado com esse espírito de subordinação a Deus, Deus abençoará o governo. Devemos ter Fé nisso. É o toque da Cidade de Deus na cidade dos homens. Deus olhará o coração daqueles que votaram pelos critérios divinos e devemos confiar na Divina Providência.

Se como pressuposto os votos são baseados puramente na práxis, seja de direita ou de esquerda, não confiando em Deus, ignorando a fé, não tendo esperança cristã, confiando basicamente na prática humana, pode-se até votar no candidato que apresente maior subordinação da práxis aos valores, mas seu governo ruirá. Não é o candidato eleito que garante um justo governo, mas sim Aquele que tem o poder de direito para tal: Jesus Cristo, Rei do Universo.

Primazia do Amor, da Fé, da Moral, da Verdade: esses são os diferenciais dos católicos, tão pouco observados atualmente. Muitos católicos escolhem seus candidatos não a partir dos critérios morais, mas pela práxis, não mais pelos valores, mas sim por ideologias e lógicas puramente humanas. Rezemos para que os católicos possam abrir suas mentes e corações para a Primazia da Verdade no Amor.

Que Nosso Senhor Jesus Cristo abençoe nossos eleitores e governantes nesse ano eleitoral e que Nossa Senhora Aparecida interceda por essa Nação.  

Dr. Rômulo é pediatra e estuda diversos temas sobre a Santa Igreja, de forma especial Doutrina Social. Casado com Rizia, pai de Maria Eduarda.

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