Comungar Jesus em Maria

Nosso Senhor ama estar com e em Maria. Temos alguns testemunhos das Sagradas Escrituras: Jesus esteve nove meses no ventre paradisíaco de sua diletíssima Mãe, tempo que o próprio Deus estipulou junto à Sabedoria para todas as mães da Terra, afim de que o Verbo divino deleitasse-se morosamente neste seu Trono de magnificência (cf. TVD § 248); porém, quando rendeu seu espírito, teve pressa em retornar a sua Mãe e ficou morto no túmulo só até o terceiro dia. E na família de Nazaré, Jesus não tão somente esteve morando com seus santos Pais, mas Lhes foi submisso e obediente por trinta anos; enquanto que viria a realizar seu ministério público por três. Ante inseparável intimidade de ambos (cf. TVD § 247), São Luís de Montfort exorta que deixemos Maria agir especialmente em nossa Comunhão; tanto mais Ela agir, mais Jesus será glorificado (cf. TVD § 273).

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Antes da comunhão, o fiel irá se humilhar, senão numa oração ao menos em espírito. A humildade é uma virtude imprescindível para comungar; Jesus, habitando em nós, repara no estado em que deixamos a nossa alma para recebê-Lo, considerando a graça que Ele produziu nela na última Santa Missa e como agora se-Lhe apresenta, a semelhante modo como faz o senhor da parábola dos talentos (cf. Mt. 25, 14-30) Entretanto, se nos rebaixarmos, podemos ter a certeza que Deus não resiste aos humildes (cf. Tg. 4, 6); ademais, os Escravos sentirão o efeito de grande confiança na mansidão paterna de Deus, se a nossa ousadia em nos aproximarmos d’Ele estiver amparada por essa Mãe do amor formoso e seus valiosíssimos méritos (cf. TVD § 216). Tal como o Verbo divino não se importou em nascer num estábulo pobre, indigno de sua majestade, mas em consideração à alma estupenda de Nossa Senhora, também Ele agora não repare tanto em nossas manchas em atenção a que dá ao espírito de Maria, que invocamos em nós para irmos receber o precioso Sacramento (cf. TVD § 266).

Sendo a Santa Missa a atualização do sacrifício de Cristo, tragamos à memória que foi neste extremo momento que Jesus nos entregou Maria como nossa Mãe (cf. Jo. 19, 26s); e renovemos nossa consagração a Ela dizendo: “Tuus totus/Tua tota ego sum, et omina mea tua sunt (Eu sou todo vosso, ó Maria, e tudo meu é vosso).

Adicionalmente, o fiel que aspergir-se com água benta terá um perdão extra dos pecados veniais, lucrará indulgência parcial (para Maria) e terá aumento de virtude e graça para melhor receber Nosso Senhor. Pode-se, ainda, honrar ainda mais a Beatíssima Virgem dizendo-se três vezes, com uma Ave-Maria ao final de cada, como é hábito em algumas capelas tradicionais: “V/: Ó Maria Mãe do amor, R/: Preparai meu coração para receber Nosso Senhor!”.

Caso a alma esteja em estado de graça, ou tenha lhe readquirido pela confissão, poderá aproximar-se da Eucaristia; caso contrário, aproveita o cristão apenas uma comunhão espiritual, que poderia ser feita de modo parecido ao que até aqui fico dito; de qualquer modo, não sem antes ter rezado bem uma contrição e que se tenha dado a Jesus e Maria a liberdade em decidirem se convém habitar em tal alma.

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Ao ter comungado, o fiel introduzirá Jesus no coração de Maria (cf. TVD § 270), desejando honrá-La em reviver a mesma alegria que teve quando na noite da Anunciação recebeu em si o Verbo eterno. Também Jesus se alegrará, pois ao descer dos Céus, encontrou em Maria um paraíso mais delicioso do que aquele do qual Adão desfrutava (cf. TVD § 18); e agora Ele é novamente entronado n’Ela, mas desta vez pelos préstimos do Escravo de amor. Se meu leitor tiver meditado bem o que é isto, o Espírito Santo lhe fará entender o privilégio do seu ofício na Eucaristia. Que honra Jesus e Maria receberão do Escravo de amor de reproduzirem aquele encontro santo e tão íntimo da Encarnação!

Deixaremos que ambos dialoguem a sós, habitando em nossa alma, enquanto estamos fora como um pequeno súdito na antecâmara de suas Majestades, sem se atrever a importuná-Los. Assim recolhidos, pediremos aos que tem a permissão para adentrar nos aposentos reais – isto é, às almas piedosas da Terra, às miríades de Anjos e à corte dos Santos – que venham, recebam nossas preces e louvores e entrem para adorar e amar a Jesus em Maria por nós (cf. TVD §§ 270s).

O fiel devoto, a certo momento – antes de se despedir, por exemplo –, suplicará à soberana Rainha que tome e guarde todos os tesouros que o Rei quiser por Ela conceder a si. Inspirado pelo ardor de São Pedro que prometeu amar Jesus de amor fatal (cf. Mt. 26, 35), prometerá a Cristo Senhor que na próxima audiência com sua Alteza – isto é, a próxima santa Comunhão –, apresentar-se-á com todas as graças que agora lhe dara. Se bem que o Escravo sabe ter a mesma tendência de mais tarde trai-Lo e agora desconfia de si mesmo (cf. TVD § 213); por outro lado, é em Maria Santíssima que ele se perde como a uma matéria fundida ou líquida nas mãos do artesão que a verte na forma para dali tirar uma réplica genuína do molde (cf. TVD §§ 219ss).

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A alma interessada em participar dignamente do Santíssimo Sacramento esteja livre para o Espírito Santo lhe conduzir ao modo mais frutuoso. O que ficou escrito aqui é, inclusive, uma adaptação do que o próprio São Luís Maria sugere no Tratado; quem se interessar em mergulhar nos santos conselhos deste perfeito Escravo de Jesus em Maria, leia os parágrafos 266 a 273.

* Siglas:
TVD: Tratado da Verdadeira Devoção à Stma. Virgem, São Luís Maria G. de Montfort;
cf.: “conferir”;
s: “e seguinte”;
ss: “e seguintes”.

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