De novo São João Batista

Dos ilustres santos que marcam a vida dos católicos, São João Batista possui uma grandeza proclamada pelo próprio Jesus Cristo, que lhe concedeu o título de “maior dentre os nascidos de mulher”. Àquele que amou antes mesmo de nascer, foram dadas a graça da justiça e da santidade (cf. Mc 6, 20). Daí que, uma vez louvado por Cristo, a Igreja louva o intrépido exemplo de João, celebrando o dia do seu nascimento e de seu martírio.

Santo Agostinho ensina que João é a voz no tempo, enquanto Cristo é a Palavra Eterna, desde o princípio. O nascimento de João, celebrado no dia 24 de junho, fez soltar a língua de Zacarias, devolveu a voz a seu pai. Prefigurando sua missão de Profeta, antes de qualquer palavra ter sido formada em seus lábios, o Todo Poderoso já o consagrava como voz a clamar a Verdade. Nascido para a Verdade, viveu verdadeiramente, reconheceu-a quando a Mãe do Salvador visitou sua mãe Isabel e esse maravilhoso encontro, sem dúvida, assinalou-o para ser o Precursor.

João é precursor de Jesus na vida e na morte, justamente porque fez cumprir o que já anunciava o Profeta Jeremias. Preparou os caminhos para o Cristo, foi experimentado antes no sofrimento, mas não se antepôs a Cristo usurpando Seu lugar, ao contrário, vestiu-se com a roupa da justiça (cf. Ef 6, 14b) e cingiu-se com a verdade (cf. Jr 1, 17; Ef 6, 14a), não tomando as vestes do Filho do Homem, longa túnica e cinto de ouro (Ap 1, 13).

Cingir-se da verdade custou caro ao Batista. A mais simples das vestes trazia consigo um alto preço. Isto porque João teve a ousadia de ser verdadeiro e honesto com Deus e consigo mesmo, diante do erro e do pecado. Cumprindo as palavras do profeta Josué, foi firme e corajoso (cf. Js 1, 6), confiando plenamente na lei de Deus, inscrita em seu coração. Assim, não temeu admoestar Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, homem acusado de vários crimes, conforme atesta São Lucas, e que mesmo assim reconhecia a santidade do homem de Deus, constrangendo-se com a intrepidez de suas palavras.

São João denunciou o flagrante adultério do poder soberano, sem temer a morte iminente, preferiu a dolorosa verdade à cômoda mentira. Desejou mais a solidão do martírio do que a companhia da turba que o seguia. Pessoas de Jerusalém, da Judeia e de toda aquela região iam até o Batista para confessar seus pecados e ouvir suas palavras. Palavras que, diferente do que dizem as canções, não eram de ternura ou de amor, mas verdadeiros brados de conversão e penitência: “Raça de víboras”; “… até das pedras Deus, que é todo poderoso, pode fazer surgir filhos de Abraão”; “O machado já está na raiz”; “… a árvore que não produzir bom fruto será lançada ao fogo”. Esse é o autêntico São João, pedra de tropeço para os incautos, mas cuja santidade de vida, palavras e ações, eram um mel que alimentava o estômago e adoçava os lábios dos peregrinos.

Os seguidores do Batista, certamente, sabiam da missão de João e que sua voz ecoaria por muitas gerações, sabiam também o destino dos santos, os quais o Senhor ama. Daí que, de certa forma, é bem provável que sua morte já era esperada. O Salmo 149, entoado pela Igreja nas festas dos Santos e Solenidades, aclama que os fiéis se levantam com louvores e espadas de dois gumes para aplicar a sentença e o castigo entre os povos e nações. Ora, de que maneira os santos e, sobretudo, São João Batista podem ter feito cumprir essa solene afirmação do Espírito Santo? Os fiéis, isto é, os santos que buscam viver a lei de Deus, irremediavelmente possuem conforto para a alma (cf. Sl 18 , 8), portanto, ainda que diante dos maiores tormentos e injúrias, trazem nos lábios os louvores do Senhor. Esses mesmos preceitos, são traduzidos em atos de fidelidade a Deus e ao próximo, as espadas de dois gumes, que denunciam as violações daqueles que, ricos de si mesmos, ignoram tudo que se chama Deus (cf. II Ts 2, 4).

Assim, os nobres são colocados entre ferros e correntes pela verdade que proclama a vida os santos. Daí que muitos pensavam ser Jesus Cristo o próprio João, ressurgido dos mortos, uma vez que a coroa da vitória prometida aos de vida exemplar dava ao povo tal esperança.  O governante adúltero ficou acorrentado pelo pecado, seduzido por sua própria iniquidade que o incitou a degolar mesmo aquele a quem admirava, fazendo valer a passagem que diz: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6, 23). Santificado no ventre, todavia, João não pagou por sua própria falta, mas sim, pagou o preço exigido pela ganância e sensualidade de Herodes. Por outro lado, a sentença pelo Senhor Jesus atesta, de outro modo, que o prêmio do justo é a vida eterna: “Dos nascidos de mulher, não há maior que João” (Lc 7, 28).

A comemoração do martírio de João à guisa do Salmo 149, convoca que se levante uma assembleia de fiéis ao Senhor para que cante um canto novo, tal como tão ricamente nos ensina Santo Agostinho: “Ó irmãos, ó filhos, ó novos rebentos da Igreja católica, ó geração santa e celestial, que renascestes em Cristo para uma vida nova! Ouvi-me, ou melhor, ouvi através do meu convite: Cantai ao Senhor Deus um canto novo. (…) Cantai com a voz, cantai com o coração, cantai com os lábios, cantai com a vida (…) Quereis cantar louvores a Deus? Sede vós mesmos o canto que ides cantar. Vós sereis o seu maior louvor, se viverdes santamente”.

Esse apelo tem ecoado por todas as gerações, mas, sobretudo, retumba aos quatro cantos da terra, para que sejamos cooperadores e amantes da Verdade, num mundo que tem ojeriza às palavras Deus e Verdade, ao próprio nome de Jesus Cristo, e que prefere aderir à sensualidade das concubinas enganadoras do que a verdadeira Amizade que fala diretamente ao coração.

Enquanto o mundo odiar a Verdade, continuará martirizando Batistas, e, enquanto existirem Batistas, a Verdade não esmorecerá no coração dos homens. João Batista precedeu em tudo ao Senhor, inclusive, na morte. Que nós, não temendo as consequências de amar o Verdadeiro, Bom e Belo, prossigamos aplainando os caminhos do Senhor, até que ele venha novamente, para destronar toda potestade perversa deste mundo de ilusões.

São João Batista, mártir da Verdade, rogai por nós!

Martin Yepes é cronista capixaba.

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