O uso do DIU (Dispositivo intrauterino) como método para evitar a gestação – aspectos científicos e de bioética

Pretende-se nesta nota oferecer informações de caráter científico e bioético, muitas das quais inacessíveis à boa parte da população, com o intuito de exercer a missão essencial da medicina, qual seja: contribuir para os cuidados sobre a vida humana, zelando, preservando e defendendo-a desde a sua concepção até a sua morte natural. No presente trabalho, vamos discutir o DIU (dispositivo intrauterino).

 

1-    O que é o DIU?

 O DIU é um dispositivo constituído, geralmente, de material plástico, que pode ser revestido e ter formatos variados. Normalmente, é inserido na cavidade uterina através do colo do útero com o intuito de evitar uma gestação. No Brasil, existem dois tipos de DIU: um revestido com cobre e outro com o hormônio progesterona.

2-    Como o DIU age evitando a gravidez? 

Podemos dividir os mecanismos de ação do DIU em duas categorias: pré-fecundação e pós- fecundação. Entre os mecanismos pré-fecundação estão: inibição da migração e da viabilidade dos espermatozoides no colo ou na cavidade uterina, lentificação do transporte do óvulo pelas tubas uterinas ou mesmo dano e destruição desse óvulo antes da sua fecundação. As evidências apontam que o DIU não inibe a ovulação em humanos. Já os mecanismos pós-fecundação são: lentificação do transporte do embrião pelas tubas uterinas, dano ou destruição desse embrião recém-formado antes que atinja o útero e impossibilidade de implantação desse embrião na parede uterina pela inflamação crônica do endométrio (camada mais interna do útero)1.

3-    O DIU pode causar aborto? 

Sim. Como descrito acima, alguns dos mecanismos de ação do DIU acontecem após a fecundação, ou seja, quando já existe uma nova vida, um embrião pronto para se desenvolver. Embora não haja consenso sobre qual mecanismo de ação do DIU seja predominante para evitar a gestação, há evidência de que os mecanismos pós-fecundação sejam importantes e expliquem em boa parte os elevados índices de contracepção. Quanto ao DIU de cobre, o provável mecanismo predominante após a fecundação é a própria toxicidade contra o embrião. Já no DIU hormonal, a inibição do transporte do embrião pelas tubas uterinas dificultaria o processo de implantação, inviabilizando o embrião1. Em recente revisão2, a Dra. Tessa Madden, professora de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade de Washington, elenca vários mecanismos de ação do DIU, dentre eles a inibição da implantação do embrião no endométrio. As próprias bulas dos dispositivos confirmam essa possibilidade. A bula do DIU TCu 380A Optima (DIU de cobre) afirma: “Dados disponíveis indicam que a efetividade anticoncepcional do Dispositivo Intrauterino de Cobre é aumentada pelo cobre que é liberado continuamente do fio e dos cilindros de cobre na cavidade uterina. O mecanismo exato pelo qual o cobre metálico aumenta o efeito anticoncepcional de um DIU ainda não foi demonstrado. Existem várias hipóteses, entre elas a interferência com o transporte de esperma, fertilização e implantação. Estudos clínicos também sugerem que o DIU previne a fertilização devido a um número alterado ou falta de viabilidade dos espermatozoides3.

Também a bula do DIU hormonal assim coloca: “O sistema libera levonorgestrel em seu corpo em uma taxa constante, mas em quantidades muito pequenas. O levonorgestrel previne a gravidez através do controle do desenvolvimento da camada de revestimento do útero (endométrio) de forma que esta não fique suficientemente espessa para possibilitar gravidez, além de promover o espessamento do muco normal no canal cervical (abertura para o útero), de forma que o espermatozoide encontre dificuldade para entrar no útero e fertilizar o óvulo.”4

4-    Quais as possíveis reações adversas ao uso do DIU? 

São citadas como reações adversas comuns e muito comuns do DIU hormonal: dor de cabeça, dor abdominal/pélvica, alterações no sangramento, vulvovaginite (inflamação do órgão genital externo ou vagina), corrimento genital, humor deprimido/depressão, enxaqueca, náusea, acne, hirsutismo (excesso de pelos pelo corpo), dor nas costas, infecção do trato genital superior, cistos ovarianos, dismenorreia (menstruação dolorosa/cólica menstrual), dor nas mamas, expulsão do sistema intrauterino (completa ou parcial). Além disso, podem ocorrer complicações relacionadas ao procedimento de inserção, como dores, sangramentos, reações vasovagais relacionadas à inserção, como tonturas ou síncope (desmaio). O procedimento pode resultar em convulsão (ataque) em paciente epiléptica. Foram relatados casos de sepse (uma infecção sistêmica muito grave, que pode ser fatal) após a inserção do dispositivo intrauterino (DIU)4.

Quanto ao DIU de cobre, o efeito colateral mais observado é o aumento do fluxo menstrual e irregularidade menstrual. Alguns outros efeitos relacionados com uso de DIU de cobre: dor pélvica crônica, dor durante a menstruação, sangramentos anormais e infecções.

5-    Aspectos de bioética 

Não é objetivo deste artigo fazer ampla revisão sobre a ética que envolve a paternidade responsável. Vamos nos deter especificamente ao uso do DIU como método que pretende evitar a gestação. Como vimos, um dos possíveis mecanismos de ação do DIU envolve a impossibilidade da implantação do embrião no útero. Ora, é de amplo conhecimento que esse embrião recém-formado pela união dos gametas masculino e feminino já representa um indivíduo humano. O centro biológico desse novo indivíduo é o novo genoma de que está dotado já o embrião unicelular, antes mesmo das primeiras divisões celulares e, obviamente, antes da sua implantação no útero. Genoma esse que identifica o embrião como biologicamente humano e especifica a sua individualidade. Além disso, esse genoma já contém em plenitude toda a informação essencial e permanente para a realização gradual e autônoma do seu desenvolvimento5. Logo, ao inviabilizar a implantação desse embrião no útero materno, o DIU suprime uma vida já concebida. Embora o direito de não procriar seja autêntico dentro de certos limites (que não cabem aqui discutir), ele nunca deverá se sobrepor ou extrapolar sobre o direito de uma outra vida. Isso em nada seria diferente, por exemplo, da eventual eliminação de um recém-nascido não desejado. “O recém-concebido deve ser considerado em seu valor humano e individual e não relativizado de acordo com a vontade dos outros5.

Muitos negam o potencial efeito abortivo do DIU. Tal afirmação é refutada cientificamente (como demonstrado aqui por meio dos trabalhos e revisões citados, além das próprias bulas e de muitos trabalhos não citados). Não cabe aqui julgar as intenções de quem o faz, mas sim constatar tais fatos que contradizem a ciência. Outros minimizam ou camuflam esse potencial abortivo, alegando ser um mecanismo possível, mas de exceção. Ora, mesmo que isso seja uma verdade (não comprovada de forma peremptória), cabe aqui o raciocínio óbvio elaborado por São João Paulo II: “bastaria a simples probabilidade de encontrar-se em presença de uma pessoa para se justificar a mais categórica proibição de qualquer intervenção tendente a eliminar o embrião humano. Por isso mesmo(…) tem de ser garantido ao fruto da geração humana, desde o primeiro instante da sua existência, o respeito incondicional (…)6”.

6-    Conclusão 

Em conclusão, o DIU é um método para evitar a gravidez que possui vários mecanismos de ação. Dentre eles, é demonstrado por estudos e admitido pelos fabricantes o potencial abortivo dado pela possibilidade de inviabilizar a implantação de um embrião humano, suprimindo assim uma vida já concebida. Além disso, o uso do DIU não é isento de reações adversas e possíveis complicações, muitas delas com grande potencial de gravidade. Deve o médico agir com ética e responsabilidade, respeitando os limites bioéticos. Também, ao Estado cabe ponderar e divulgar com transparência tais informações para que a população tenha verdadeira liberdade de escolha e não seja levada por posicionamentos não científicos, baseados apenas em impressões subjetivas.

 

Referências 

1 JOSEPH B. et al, Mechanisms of action of intrauterine devices: Update and estimation of postfertilization effects Stanford, American Journal of Obstetrics & Gynecology, Volume 187, Issue 6, 1699 – 1708

2 https://www.uptodate.com/contents/intrauterine-contraception-background-and-device-types

3 https://pro.consultaremedios.com.br/bula/diu-optima-tcu-380a

4 http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=18774942017&pId Anexo=9283077

5 SGRECCIA, ELIO. Manual de bioética: fundamentos e ética biomédica. Volume I, Capítulo 10.

6 SÃO JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Evangelium Vitae, n. 60.

 

Marcos Eugênio Pires de Azevedo Lopes

Presidente Centro Anchieta

  

Flávio Luiz Rua Ribeiro CRM ES – 8099

Coordenador Ala Médica Centro Anchieta

Clique no texto a seguir para baixar a nota: Nota DIU

Deixe uma resposta

Fechar Menu
×

Carrinho