Os brasileiros, os católicos e a Copa do Mundo

Tenho lido em diversos artigos de jornal e também ouvido de algumas pessoas “instruídas” que a Copa do Mundo é um evento imoral e prejudicial para a humanidade. Alguns abominam a competição por conta dos rios de dinheiro empregados para organizar e dos lucros exorbitantes que a FIFA e os patrocinadores embolsam durante e depois do torneio. Outros criticam uma espécie de anestesia alienante que termina tirando o foco dos reais problemas que afligem o povo.

Não obstante todas essas críticas – que, em si, não são novas – o mais impressionante, porém, foi ler num jornal capixaba a análise de um cronista esportivo que dizia o seguinte: o brasileiro não se encanta mais com a sua Seleção porque a identificação dos jogadores com o Brasil não é grande, visto atuarem quase todos em clubes da Europa e também porque a corrupção e as decepções com a classe política minaram o patriotismo a tal ponto que seus efeitos se sentem até no pouco apelo popular que a Copa da Rússia está conseguindo despertar. Evidentemente, não posso concordar com os argumentos. Mas também não posso rejeitá-los totalmente. Os jogadores que atuam hoje na Europa se identificam muito com a torcida brasileira. Por exemplo, Neymar é ídolo do Santos e Thiago Silva e Marcelo, do Fluminense.

Entretanto, duas coisas são verdadeiramente preocupantes.

Primeiro, é verdade que o entusiasmo do povo pela Copa é cada vez menor (menos da metade da população está interessada na competição, segundo dados recentes); como cada vez é menor o número de praticantes de futebol, especialmente entre os jovens. O que esse fenômeno indica, porém, é muito mais profundo do que um simples desinteresse pela pátria ou coisas semelhantes. Em meu ponto de vista, a redução na prática do futebol guarda relação importante com:

1) a queda da natalidade: são necessários 22 jogadores para uma partida de futebol!

2) a falta de virilidade na criação dos rapazes: muitos são superprotegidos pelos pais e o futebol torna-se um esporte assaz arriscado e talvez até brutal; e

3) o crescente individualismo: para um esporte coletivo, é necessário formar amizades, relacionar-se, abrir-se ao convívio com os outros e trabalhar em equipe.

Assim, há motivos de sobra para um católico se alarmar quando observa crescer o mato em tradicionais praças esportivas, abandonadas por falta de atletas nas cidades e, infelizmente, também no interior. Comunidades rurais atualmente têm dificuldade para formar uma equipe de aspirantes, pois não há suficientes rapazes menores de 20 anos para jogar.

Segundo, a falta de encantamento com a Copa, o que se manifesta com a redução das bandeirolas nas casas e postes e a pouca mobilização popular para pintar muros e criar jingles, guarda relação com o “pseudorracionalismo” de um ser humano que já não se importa com nada, que não sente nem pensa absolutamente nada que passe ao largo de seus interesses pessoais mais imediatos. Enfim, tem a ver com egoísmo. Superficial, o jovem contemporâneo passa seus dias sem experimentar em profundidade nem as grandes alegrias nem as grandes tristezas da vida. Questionador, não encontra sentido nas tradições e, “cansado” desde a infância, dominado por um tédio infernal, não encontra tempo para folguedos e sãos divertimentos,  referindo sempre as festas mais excêntricas, inovações tecnológicas e prazeres vis.

Pensando na tripartição da alma proposta por Platão, poderíamos dizer que as gerações passadas, se não eram racionais (alma racional, parte superior), eram pelo menos afetuosas, “quentes” (alma irascível, parte intermédia). O homem jovem de hoje, que se afirma racional e superior, não passa de um mendigo de prazeres baixos, escravo da alma concupscível, nivelado com os animais. Como dizia Pascal, “o homem não é anjo nem animal e, por desgraça, quem quer fazer papel de anjo termina fazendo papel de animal” (Pensamentos, 358).

Por tudo isso, não é vã a saudação – já criticada por alguns – feita pelo Papa Francisco após a Audiência Geral da quarta-feira, 13 de junho de 2018:

“Amanhã começa a Copa do Mundo de Futebol na Rússia. Desejo enviar a minha cordial saudação aos jogadores e aos  organizadores, assim como aos que seguirão pelos meios de comunicação social este evento que ultrapassa qualquer fronteira”.

O Papa tem razão: apoiar a Copa do Mundo, apoiar o futebol, é remar contra a correnteza de um mundo que tenta lançar fora os últimos pedaços de uma civilização em ruínas.

Em breve, ainda durante o Mundial, espero publicar a tradução de um artigo escrito pelo Cardeal Ratzinger, em 1985, sobre o futebol.

Álvaro Francisco de Maria, cronista católico do interior capixaba.

Deixe uma resposta

Fechar Menu
×

Carrinho