Os ídolos acadêmicos

É de causar escândalo que, hoje, mesmo diante de tanta informação, num tempo em que tudo está tão acessível a “todos”, no meio acadêmico – lugar de mentes ilustradas, livres, independentes, autônomas, antidogmáticas, local de rompimento com o paupérrimo “senso comum” – criem-se ídolos dogmáticos, pseudodivindades adoradas por mestres e aprendizes.

O primeiro deus, adorado dos meios acadêmicos/universitários, é o professor. Os mandamentos que ele prescreve são irretocáveis e qualquer tentativa de fazê-los descer do Olimpo é heresia, cuja penalidade é a ridicularização pública e, se puderem, a exposição do fígado do herege ignorante aos corvos.

O segundo deus, ou semideus, é aquele que é adorado pelo divino mestre. O primeiro deus, por ser o caminho, a inteligência e a liberdade, sabe o que é o melhor para seus asseclas, de modo que, qualquer coisa que ele adore, certamente, é digna de adesão irrestrita e culto idolátrico.

Espalham-se os falsos sacerdotes e profetas que propagam a “boa notícia” de libertação das antigas amarras mitológicas, para uma nova seita do conhecimento privilegiado, esclarecido e douto. Seu mandamento: “fazei tudo o que eu vos disser”; sua doutrina, a que convir; sua liturgia, a bajulação; suas vestes, a empáfia e o cinismo; seu cetro, a imposição. Servem a ambas as divindades, o incenso da mentira e dos mantras torpes.

No panteão dos acadêmicos, sempre cabem outros, os simpáticos e os diplomistas, neologismo que indica os que acumulam certificados que quantificam seu pedigree intelectual.

Os primeiros tomam sua cadeira divina não pelo cumprimento dos doze trabalhos de Hércules, mas, simplesmente, pedem à outra divindade que os faça assentar ou à sua esquerda ou à sua direita. Não importa! Contanto que possam sorver os mais esplendorosos manjares.

A segunda ascensão divinal acontece pela mera reclamação de seu direito divino, confirmado pela aclamação de papiros antigos, mais verazes e onipotentes que a palavra criadora e que cujas palavras consecratórias ali contidas não somente outorgam a dignidade de tal estirpe celeste, mas, também, conferem o grau de sabedoria em níveis invejados pelas Donzelas do
Milho, Atenas, Hecate e, por fim, pelas Dakini indianas.

Do alto de suas catedrais, as salas de aula, sobretudo, da Academia, esses ídolos dominam e governam o mundo em grande paz e conformado silêncio. As suas moiras tecem e moldam as mentes e imprimem ali sua imagem. Nada com muita semelhança, pois é costume entre os deuses o parricídio e/ou o fratricídio.

Cresce, portanto, os seguidores de Imhotep, cultuadores dos novos deuses da modernidade, lobotomizados pelos ideais da pós-verdade, um nome bonito e inclusivo para dar à atitude consciente de oferecer sacrifícios a tudo o que, antigamente, poderíamos chamar de erro e falsificação.

O mundo carece de linguagem clara e sincera, numa palavra: carecemos de verdade! Só a Verdade poderá, de uma vez por todas, exorcizar os falsos deuses e seus artífices.

Martin Yepes é cronista capixaba.

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