Análise do artigo “O que é isso – a doutrinação?” publicado no site da AVES

Em resposta ao artigo “O que é isso – a doutrinação?”, publicado no dia 12 de novembro de 2018, no site da Arquidiocese de Vitória – ES (AVES), de autoria do Prof. Edebrande Cavalieri, apresentamos colocações que julgamos de interesse do público capixaba, uma vez que se observa no documento um grande número de inconsistências históricas, doutrinárias e conceituais que induzem a erro o leitor incauto.

Em contraposição ao artigo, pontuaremos evidências para que o leitor tire suas próprias conclusões. O autor insiste em que estudemos. Humildemente, concordamos e, de coração aberto, convidamo-lo a fazer o mesmo, a partir das fontes aqui apresentadas.

Antes de iniciar a análise do conteúdo, transcrevemos passagem do livro “Verdades Roubadas”, do Padre Miguel Ángel Fuentes, que ilustra alguns dos erros perpetuados por religiosos, leigos católicos e não católicos, às vezes bem-intencionados, mas, na maioria das vezes, mal-informados.

Diz Pe. Fuentes (página 277):

As lendas negras e as tergiversações da história em geral são muito numerosas. É muito difícil que não tenhamos ouvido falar muito mal do caso Galileu Galilei, da Inquisição, da expulsão dos judeus da Espanha, das cruzadas, da conquista da América, das riquezas da Igreja, do Papa Pio XII e o nazismo, do anti-semitismo da Igreja, etc. Como complemento obrigatório se somam as lendas rosas: mitificações tão falsas como as anteriores; pensemos nos halos celestiais que rodeiam certos fatos do passado como o estado quase paradisíaco em que se haveriam encontrado os indígenas pré-colombianos e que os conquistadores europeus destruíram com sua presença bélica (tapando-se os olhos ante os séculos de violência e extermínio que reinavam entre as diversas tribos americanas, os rituais demoníacos, a prática da antropofagia, os sacrifícios humanos rituais, as deportações de povos inteiros, a escravidão que reinava entre eles, as famosas ‘guerras floridas’ realizadas para conseguir vítimas humanas para os sacrifícios idolátricos, etc.); o mesmo se diga do estado idílico com que se descreve o paganismo pré-cristão (tema muito colocado na moda pelas correntes New Age); ou, mais próximo a nós, as apresentações simpáticas de acontecimentos sangrentos e desumanos como os da revolução francesa, as liberais tramas de algumas revoluções americanas, as políticas imperialistas britânicas, etc.”.

Passemos, então, à análise do artigo.

 

  • Diz o texto:Buscando o significado de doutrinação nos dicionários encontramos como sinônimo de catequizar, incutir uma determinada doutrina, ideia, atitude, crença. É distinta de educação, pois de uma pessoa doutrinada se espera que ela não questione e nem analise criticamente a doutrina sobre a qual foi ensinada. Ou seja, espera-se que ela não encontre os furos daquilo que passou a acreditar piamente.”.

O autor apresenta um argumento que induz o leitor a erro.

Primeiro, realmente não se pode confundir doutrinação no sentido da educação moral e religiosa com doutrinação no sentido do ensino. Mas isso infelizmente ocorre[1] como veremos adiante.

Hoje, educação envolve (ou deveria envolver) ensinar e aprender; que se inicia com os pais e, só então, pode ser complementada na escola. Já o ensino compreende (ou deveria compreender) a transmissão de conhecimentos específicos que ocorre nas escolas e universidades.

Vejamos o que diz o Catecismo da Igreja Católica (CIC) sobre educação dos filhos, conforme parágrafos abaixo:

– 2211: A comunidade política tem o dever de honrar a família, de assisti-la, de lhe garantir sobretudo: – o direito de se constituir, de ter filhos e de educá-los de acordo com suas próprias convicções morais e religiosas; – a liberdade de professar a própria fé, de transmiti-la, de educar nela os filhos, com os meios e as instituições necessárias.

– 2221: Os pais são os principais e primeiros educadores de seus filhos.

– 2223: Os pais são os primeiros responsáveis pela educação de seus filhos.

– 2372: O estado não pode legitimamente substituir a iniciativa dos esposos, primeiros responsáveis pela procriação e educação dos filhos.

O CIC deixa claro que é direito dos pais educar os filhos em termos morais e religiosos. Logo, é dever dos professores ensinar, restringindo-se à transmissão de conhecimento específico em suas respectivas áreas de formação.

 

  • Diz o texto:Em geral, as lideranças religiosas atuam mais na direção de incutir uma determinada doutrina; por isso, muitos adotam uma postura fundamentalista para a leitura da Bíblia. Ao contrário, educar é um processo que se estende num caminho aberto aos mais diversos questionamentos. Por isso, a educação, tanto recebida na família como na escola, é um processo que nos ajuda a viver no mundo envolto em conflitos e contradições”.

O professor parece estar alinhado com o arcabouço conceitual adotado por ideólogos marxistas, os quais, por exemplo, preconizam pejorativamente que respeitar os dogmas da Igreja significa adotar “postura fundamentalista”. Como se a um leigo, ou até a um religioso com formação razoável, fosse coerente questionar dogmas católicos ao sabor de seus caprichos e vontades, como também a qualquer pessoa de bom senso desautorizar a evidência da realidade.

Caso aplique-se o aludido “processo educacional” (segundo o autor, “um caminho aberto aos mais diversos questionamentos”) à Moral Católica, não se pode negar que se estaria adotando uma postura protestante, logo, em dissonância com o Magistério da Igreja. Veremos adiante que o autor parece abonar a grande heresia de Lutero e seus seguidores, defendendo seus “questionamentos” à Igreja, representados por suas 95 teses.

O caro professor, que tanto se preocupa com que seus leitores estudem, parece não considerar o que diz o Catecismo da Igreja Católica (CIC) sobre o tema da educação.

 

  • Diz o texto: “Também as religiões podem educar na fé de maneira crítica, como o próprio Jesus Cristo fazia no meio judaico, questionando as diversas práticas religiosas que se assemelhavam a comportamento de manada, ou seja, hipócrita e sem senso crítico”.

O repetitivo uso do termo “crítica” ao longo do artigo remete-nos automaticamente a dois desdobramentos do marxismo:

1) a Teoria Crítica dos neomarxistas da Escola de Frankfurt; e

2) a Pedagogia do Oprimido, do marxista Paulo Freire, amplamente difundida entre professores no Brasil.

Conforme D. Fernando Arêas Rifan: “O marxismo é a teoria política de Karl Marx e Friedrich Engels, que prega a proclamação da emancipação da humanidade, através da luta de classes, para se chegar ao socialismo, rumo a uma sociedade sem classes, apátrida e igualitária, o comunismo, com a ditatura do proletariado, teoria colocada em prática na Rússia por Lenin, Trotsky e Stalin.[2].

Acerca do Marxismo, do Comunismo e do Socialismo, posiciona-se o Magistério da Igreja:

Encíclica Rerum Novarum (Papa Leão XIII – 1891): o socialismo é “um corpo de doutrinas amplamente inspiradas pelo pensamento marxista”.

Encíclica Quadragesimo Anno (Papa Pio XI – 1931): “… o socialismo quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como ‘ação’ […] não pode conciliar-se com a doutrina católica”. E complementa: “‘Socialismo religioso’ e ‘socialismo católico’ são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista”.

Encíclica Divini Redemptoris (Papa Pio XI – 1937): “A doutrina que o comunismo esconde sob aparências perfeitas e sedutoras, tem por fundamento os princípios do materialismo histórico e dialético já propostos por Marx e pelos mestres do bolchevismo, que pretendem possuir a única interpretação do marxismo autêntica. Eis o novo Evangelho que o comunismo bolchevista e ateu quer anunciar ao mundo como mensagem de salvação e de redenção. Sistema cheio de erros e de sofismas, oposto tanto à razão quanto à revelação divina; doutrina subversiva da ordem social porque destrói os fundamentos mesmos dessa ordem… Pela primeira vez na história assistimos a uma luta friamente desejada e sabiamente preparada do homem contra tudo o que é divino. Vigiai, veneráveis irmãos, para que os fiéis não se deixem iludir. O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir de maneira alguma a colaboração com ele da parte de quem queira salvar a civilização cristã”.

Encíclica Mater et Magistra (Papa João XXIII – 1961): “não se pode admitir de maneira alguma que os católicos adiram ao socialismo moderado”.

Catecismo da Igreja Católica (CIC – parágrafo 2425): “A Igreja tem rejeitado as ideologias totalitárias e ateias associadas, nos tempos modernos, ao ‘comunismo’ ou ao ‘socialismo’… A regulamentação da economia exclusivamente por meio do planejamento centralizado perverte na base os vínculos sociais

Portanto, do artigo, conclui-se haver uma comparação indevida e infeliz de Cristo Jesus com críticos marxistas e de outras designações religiosas.

 

  • Diz o texto: “Entre nós cresce um movimento de acusação e perseguição àqueles que são os primeiros responsáveis pela educação de nossa juventude, os professores. São taxados como doutrinadores dos alunos, considerados presas fáceis.”.

Em primeiro lugar, como vimos anteriormente no CIC, “os pais são os principais e primeiros educadores de seus filhos”, não os professores. Logo, a assertiva do autor é falsa.

Segundo, o movimento de reação, e não de “acusação e perseguição”, por parte de pais, alunos e professores, não é por acaso. Avaliemos algumas pesquisas realizadas para entender a real situação das escolas e universidades brasileiras.

Uma delas, realizada pelo Instituto Sensus, em 2008[3], demonstra:

– Que apenas 8% dos professores acham que a principal missão da escola é ensinar matérias e 78% acham que é “formar cidadãos”;

– Que as duas personalidades com as quais os professores mais se identificam são Paulo Freire (29%) e Karl Marx (10%); e

– O alto percentual de alunos que veem com viés positivo revolucionários e ditadores: 86% a Che Guevara, 65% a Lenin e 51% a Hugo Chávez.

Ademais, pesquisa realizada em países da América do Sul demonstrou que 85% dos professores de história que lecionam no Brasil são de esquerda[4]. Ainda, pesquisa realizada nas cinco melhores universidades públicas brasileiras atesta o amplo predomínio de obras com viés esquerdista em suas bibliotecas[5].

 

  • Diz o texto:Os professores que trabalham com disciplinas que refletem sobre a origem das diversas desigualdades, dos racismos, da exploração do trabalho, do uso da terra, do machismo e da violência do homem sobre a mulher, segundo esses acusadores, deverão abster deste ensino, pois isso é doutrinar. Até o ensino do evolucionismo darwinista passou a significar doutrinação. Já há um grupo defendendo que se ensine na escola o chamado “criacionismo”, quando se interpreta o texto bíblico de maneira fundamentalista, sem análise, sem interpretação e descontextualizado. Isso sim é doutrinação. O texto bíblico que relata a criação do mundo poderia muito bem servir para uma educação religiosa crítica, analisando os diversos sentidos descritos no relato mítico, que existe em diversas outras culturas.”.

O autor, que até então defendia que tudo deve ser “questionado” e “criticado”, agora ironiza o debate sobre o “criacionismo”, que segundo ele decorre da interpretação “fundamentalista, sem análise e descontextualizada do texto bíblico”, levando a crer que o “evolucionismo darwinista” deve ser aceito sem “questionamentos” e “críticas”. Passagem no mínimo contraditória.

Sobre as “disciplinas que refletem sobre a origem das diversas desigualdades, dos racismos, da exploração do trabalho, do uso da terra, do machismo e da violência do homem sobre a mulher”, Pe. Fuentes ressalta a importância de que avaliemos os fatos com objetividade e sem motivações ideológicas:

“[não] vamos justificar nenhuma perversão do passado porque se realiza no presente, nem uma degeneração do presente porque ‘sempre ocorreram coisas assim’. A verdade sempre será verdade, a mentira sempre será mentira, a injustiça jamais deverá ser justificada… Apesar disso devemos ser conscientes de que se pode chegar com a razão a muitas verdades que pertencem – ao menos secundariamente – ao direito natural; e por isso podemos supor certa culpabilidade em muitos juízos errôneos do passado. Não podemos então desculpá-los. Mas tampouco podemos acusá-los como o faríamos com nossos contemporâneos.” (páginas 268 e 269).

O respeito à Tradição e às Sagradas Escrituras passou longe das últimas linhas do parágrafo sob análise. Surpreende-nos que um católico defenda tal posicionamento e que o site da AVES reverbere tão grave erro.

 

  • Diz o texto: “As pessoas que ficam achando “doutrinação” em tudo, principalmente na escola, deveriam estudar um pouco para saber o que significa isso. Se fosse assim tão fácil doutrinar, os pais e mães não teriam tanta dificuldade para educarem seus filhos. Bastaria doutrinar – como lavagem cerebral – e pronto. E o filho não mais arredaria o pé deste caminho. É tão comum encontrar numa mesma família um filho ateu, outro católico, outro espírita, pai sem religião… Hoje para se garantir a união de muitas famílias não há outro caminho a não ser viver uma experiência ecumênica e multicultural.”.

O autor insiste em querer igualar a Igreja Católica, Corpo Místico e Única Igreja de Cristo, a quaisquer seitas e designações religiosas.

Sobre “ecumenismo” e “multiculturalismo”, vejamos o que diz o CIC (parágrafo 816):

O Decreto sobre o Ecumenismo, do Concílio Vaticano II, explicita: ‘Pois somente por meio da Igreja Católica de Cristo, a qual é meio geral de salvação, pode ser atingida toda a plenitude dos meios de salvação. Cremos que o Senhor confiou todos os bens da Nova Aliança somente ao Colégio Apostólico, do qual Pedro é o chefe, a fim de constituir na terra um só Corpo de Cristo, ao qual é necessário que se incorporem plenamente todos os que, de alguma forma, já pertencem ao Povo de Deus”.

Segundo o Teólogo Scott Hahn, em seu livro “Razões para crer”,

Hoje muitas pessoas entendem a palavra ‘católico’ no sentido de uma denominação religiosa, como Presbiteriano ou Batista. Mas, de fato, o termo Católico significa o oposto disso; significa ‘universal’, e esta universalidade é uma qualidade da Igreja que foi desejada pelo próprio Jesus, quando disse: ‘Toda autoridade foi dada a mim no céu sobre a terra. Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês. Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo’ (Mt 28, 18-20). Tal catolicidade veio como cumprimento de muitas profecias do Antigo Testamento: ‘[…] e todos os povos, nações e línguas o serviam. O seu poder é um poder eterno […]’ (Dn 7,14).” (páginas 90 e 91).

O estimado professor parece querer demonstrar que apenas os professores, que “muito estudam”, são capazes de perceber a realidade. Seriam os professores “ungidos”, “sábios” e caberia a eles, não aos pais e à Sã Doutrina Católica, “educar” os jovens para serem “críticos”?

A pergunta que o autor deve responder ao leitor: críticos de quem, de que e, sobretudo, para quê?

 

  • Diz o texto: “O pluralismo de ideias e escolhas de vida parece ser o nosso destino daqui para a frente. Pai e mãe que quiserem sempre os filhos perto de si, almoçando junto aos domingos, não poderão retroceder para o caminho da imposição “doutrinária”. É preciso que avancem na educação crítica e livre.”.

Vejamos o que diz o CIC (parágrafo 1656) sobre o papel dos pais na educação dos filhos:

Em nossos dias, num mundo que se tornou estranho e até hostil à fé, as famílias cristãs são de importância primordial, como lares de fé viva e irradiante. Por isso o Concílio Vaticano II chama a família, usando uma antiga expressão, de ‘Ecclesia domestica’. É no seio da família que os pais são ‘para os filhos, pela palavra e pelo exemplo… os primeiros mestres da fé. E favoreçam a vocação própria a cada qual, especialmente a vocação sagrada’”.

O que seria a “educação crítica e livre” proposta pelo caro autor? Aquela que tudo relativiza e nivela? Por exemplo, igualando em importância Nosso Senhor Jesus Cristo ao herege Lutero ou aos “críticos marxistas”?

 

  • Diz o texto: “Na Cristandade medieval, a doutrinação se impunha à força. “Ou crê ou morre” era o slogan dos exércitos cristãos, inclusive era obrigatório a acreditar que o sol girava em torno da terra. Eram os tempos da crença no geocentrismo e por contestar isso é que Galileu fora condenado como herege. Isso era suficiente para ser queimado na fogueira inquisitorial, em praça pública, para servir de exemplo. Foi condenado à masmorra e seus livros proibidos de serem vendidos ou lidos. Somente puderam ser publicados em 1982, e em 1992 o Papa João Paulo II reconheceu publicamente as descobertas de Galileu e afirmou que houve uma trágica incompreensão mútua entre a Igreja e o cientista.
    Portanto, de 1633 quando foi condenado até 1992, Galileu permaneceu na lista inquisitorial. Que espécie de “doutrinador” seria ele que ameaçava a fé cristã? Somente a força militar travestida de religião foi capaz de manter tamanha imbecilidade diante do avanço do conhecimento científico e filosófico. Galileu era doutrinador? Ele foi banido das escolas com esta acusação.
    Hoje, parece-me que os cegos que acusam os professores de doutrinadores desconhecem a realidade em que vivem e se assemelham aos inquisidores dos tempos sombrios da pré-modernidade. A maior fonte do pensamento crítico é a própria realidade. Ciência e filosofia não se desenvolvem sem olhar para a realidade que é ambígua sempre. Essência e aparência não se equivalem. Vemos sim o sol atravessar o céu, mas nem por isso a verdade é esse movimento geocêntrico. Os perseguidores dos professores de hoje são semelhantes aos inquisidores medievais, sinal de atraso científico e filosófico.”.

Quanta confusão! Surpreende-nos o anacronismo adotado na argumentação e a apresentação de uma versão deturpada da história.

Joseph Bernard, em seu livro “Inquisição: história, mito e verdade”, esclarece-nos muitas coisas. Esperamos que o autor leia, pelo menos, as passagens transcritas doravante:

Não é fácil remediar a ignorância que reina sobre o assunto [Inquisição], raros são os autores sérios que estudam realmente com profundidade. Para compreender a Inquisição, é preciso conhecer a mentalidade que tinha o homem medieval. É um erro crasso analisar uma época passada pela mentalidade moderna (página 8).”.

Pe. Fuentes, de forma objetiva, nos esclarece:

Os grandes homens foram filhos de sua época; não podemos julgá-los com todos os critérios que nos custaram suor e lágrimas alcançar com o passar de décadas e séculos. Não julguemos a um homem do século V ou do século XIII ou do XVI com a mentalidade de um homem do século XX, naquelas coisas que dependem muito de circunstâncias temporais ou culturais, como pode ser o caso das ideias que tiveram muitos de nossos antepassados sobre fenômenos como a escravidão, o direito de guerra, a liberdade de opinião, e outros fenômenos desse estilo… De todos os modos, não devemos acreditar-nos muito sensíveis em uma época em que denegrimos a escravidão do passado ao mesmo tempo que aceitamos escravidões modernas mais graves e mais extensas que as do passado, como a prostituição, ou a droga, ou das opressões econômicas que submergem a povos inteiros na injustiça e na miséria; ou vituperamos as matanças e as guerras da antiguidade tapando os nossos olhos diante de genocídios diários como os do aborto, as ‘limpezas’ étnicas e os extermínios religiosos, etc!”. (“Verdades Roubadas” – página 268),

Leiamos o que diz São João Paulo II, citado no livro do Pe. Fuentes:

É justo que… a Igreja assuma com uma consciência mais viva do pecado de seus filhos recordando todas as circunstâncias nas que, ao longo da história, afastaram-se do espírito de Cristo e de seu Evangelho, oferecendo ao mundo, em vez do testemunho de uma vida inspirada nos valores da fé, o espetáculo de modos de pensar e atuar que eram verdadeiras formas anti-testemunho e de escândalo.” E fazendo referência ao caso concreto da Inquisição acrescentava: “Ante a opinião pública a imagem da Inquisição representa de alguma forma o símbolo deste anti-testemunho e escândalo. Em que medida esta imagem é fiel à realidade? Antes de pedir perdão é necessário conhecer exatamente os fatos e reconhecer as carências ante as exigências evangélicas nos casos em que seja assim (…) Há que recorrer ao ‘sensus fidei’ para encontrar os critérios de um juízo justo sobre o passado da vida da Igreja.” (“Verdades Roubadas” – páginas 275-6).

Falemos, pois, sobre as lendas negras mencionadas pelo professor: a Idade Média, a Inquisição e o caso Galileu Galilei.

Sobre a Idade Média, recomendamos o livro “A Formação da Cristandade”, do Prof. Christopher Dawson. Para ilustrar o período tão injustamente condenado, leiamos o que diz Joseph Bernard:

A Idade Média é pejorativamente chamada a idade das trevas, quando na realidade trouxe inúmeros avanços para a sociedade. A verdade é que neste período o povo tinha fé e piedade profunda, por isso é atacada como época de obscuridades. Incrimina-se a mentalidade medieval por queimar malfeitores na fogueira; será que os tempos modernos possuem uma mentalidade diferente? Nas últimas guerras quantos foram queimados pelos lança-chamas que atingem o inimigo a 100 metros de distância? Quantos foram queimados pela bomba de Hiroshima? Quantos abortos foram cometidos? Quantos idosos foram descartados pela eutanásia? Essa é a mentalidade moderna em que tudo é permitido, exceto aceitar a Verdade, o Caminho e a Vida.

Nós reprovamos os procederes dos nossos antepassados, eles com certeza ficariam indignados com os métodos modernos. Não vamos infligir aos povos do passado, admiráveis pela fé ardente, a injúria de compará-los com os pagãos modernos, encarnados principalmente nos nazistas, comunistas, terroristas, relativistas e abortistas. Não podemos comparar os crentes antigos e os materialistas modernos, porque os materialistas se colocam à margem da cultura e da moral, tornando manifesto – o que precisamente os antigos queriam evitar pela instituição do tribunal da Inquisição –  que a decadência religiosa é a maior desgraça do gênero humano.” (“Inquisição: história, mito e verdade” –  páginas 89 e 90).

Sobre a Inquisição:

Em suma, podemos acreditar que a instituição e o funcionamento dos tribunais da Inquisição realizavam um verdadeiro progresso nos costumes vigentes; não somente tinham acabado com as execuções sumárias, como diminuíram consideravelmente as condenações que terminavam com a pena de morte. A Inquisição só se explica e justifica pela mentalidade daqueles que representavam o poder civil e eclesiástico na Idade Média e pelo horror que lhe inspiravam o crime de heresia. Para compreender semelhante instituição é preciso formar-se com uma alma ancestral.

O Santo Ofício é um produto da mentalidade de seu tempo, mesmo assim apresentou características particulares, em que aparecem o espírito clemente, humano, pedagógico e civilizador da fé cristã; sua intenção fundamental era medicinal e não vingativa. A reintegração do criminoso na sociedade, que muitos consideram uma conquista dos nossos dias, era praxe antiguíssima e primordial da Igreja. Para o tribunal civil não havia reconciliação, o criminoso era executado, mesmo que tivesse se arrependido, não havia pena alternativa.” (“Inquisição: história, mito e verdade” – páginas 87 e 88).

Ainda sobre a Inquisição, vejamos o que diz o Prof. Felipe Aquino em seu livro “Para entender a Inquisição”:

De 29 a 31 de outubro de 1998, por iniciativa do Papa João Paulo II, realizou-se em Roma o Simpósio Internacional sobre a Inquisição (SV), cujas Atas foram publicadas… Os especialistas (30 renomados historiadores) foram convidados, segundo a orientação do Papa, ‘sem se importar com a nacionalidade, credo religioso e orientação ideológica ou da pertença a um certa escola historiográfica; com a máxima liberdade para se conhecer com profundo conhecimento a particular Instituição eclesiástica chamada Inquisição…

A Inquisição na Espanha celebrou, entre 1540 e 1700, 44.674 juízos. Os acusados condenados à morte foram apenas 1,8% (804) e, destes, 1,7% (13) foram condenados em ‘contumácia’, ou seja, pessoas de paradeiro desconhecido ou mortos que em seu lugar se queimavam ou enforcavam bonecos.

No que se refere às famosas ‘caças às bruxas’ dos 125.000 processos de sua história, a Inquisição Espanhola condenou à morte 59 ‘bruxas’. Na Itália, 36 e em Portugal 4. É muito menos do que se propaga. Alguns adversários da Igreja falam absurdamente em “milhões” de bruxas queimadas na fogueira.

Se somarmos estes dados não se chega sequer a 100 casos, contra as 50.000 pessoas condenadas à fogueira, em sua maioria pelos tribunais civis, em um total de cem mil processos (civis e eclesiásticos) celebrados em toda a Europa durante a Idade Média.

Ficou claro que a Inquisição teve pouca participação na morte das bruxas; mas os tribunais civis as mataram aos milhares.

Os números de condenados mostram que há muito exagero sobre o assunto. Em 930 sentenças que o Inquisidor Bernardo Guy pronunciou em 15 anos, houve 139 absolvições, 132 penitências canônicas, 152 obrigações de peregrinações, 307 prisões e 42 ‘entregas ao braço secular’. Os tribunais de exceção dos tempos modernos condenaram à morte muito mais gente.” (páginas 22 e 23).

Sobre o caso Galileu Galilei, recomendamos ao professor a leitura do capítulo “O Caso Galileu Galilei” que consta no livro do Prof. Felipe Aquino “Para entender a Inquisição”. Trazemos apenas alguns trechos que resumem o que de fato aconteceu:

Em 03/07/1981, o Papa João Paulo II nomeou uma Comissão de teólogos, cientistas e historiadores, a fim de aprofundar o exame do caso Galileu. Esta Comissão estudou o assunto e, após onze anos de trabalho, apresentou seus resultados ao Papa.

O Papa recordou um fato histórico importante: Galileu já tinha sido reabilitado por Bento XIV em 1741, com a concessão do ‘Imprimatur’ à primeira edição de suas obras completas. Em 1757, as obras científicas favoráveis à teoria heliocênctrica foram retiradas do ‘Index’ de livros proibidos. Em 1822, Pio VII (1800 – 1823) determinou que o ‘Imprimatur’ podia ser dado também aos estudos que apresentavam a teoria copernicana como tese.

Muitos erros e mentiras são propagados sobre o Caso Galileu: alguns dizem erroneamente que ele foi condenado na Idade Média, torturado e morto; nada disso ocorreu. Galileu nasceu em 1564, portanto, um século após o término da Idade Média (1453).

Outro fato, para alguns teólogos, a defesa de Galileu assemelhava-se com as inovações protestantes do ‘livre exame da Bíblia’, defendido por Lutero a partir de 1517. E o mundo de então não estava ainda habituado à ciência com bons aparelhos de observação como hoje. Na época de Galileu ainda era pequeno o desenvolvimento das ciências naturais, então, era normal usar as Sagradas Escrituras também para explicações científicas, o que hoje não se faz mais.

No dia seguinte, em Decreto do Santo Ofício, foi publicada a sentença, na qual consta: ‘… é absolvido da suspeição de heresia, desde que abjure, maldiga e deteste ditos erros e heresias.

Galileu ouviu de pé a leitura de sua condenação (três anos de prisão; recitação semanal dos sete salmos penitenciais, por três anos). Depois, de joelhos e com a mão sobre os Evangelhos, assinou um ato de abjuração, no qual declarava que era ‘justamente suspeito de heresia’.

Galileu foi viver no palácio do Embaixador de Florença e depois passou para a casa do Arcebispo Piccolomini, seu discípulo e admirador, em uma espécie de prisão domiciliar. Foi-lhe permitido voltar a Florença em 10/12/1633, cinco meses e oito dias depois da condenação.

Como se vê, nada de condenação por heresia, torturas, fogueira, etc.

Em 1637 Galileu ficou cego… Morreu em 08/01/1642, assistido por um sacerdote, como bom católico.” (páginas 229, 230, 231 e 234).

“O pior cego é aquele que não quer ver”. A pergunta que deve ser feita ao professor: em que época o estudo da filosofia, da ciência, do direito e da economia, a cultura e as artes foram garantidos, incentivados e floresceram? Resposta: na Idade Média, com a Cristandade Medieval! Com a palavra Prof. Felipe Aquino na apresentação de seu livro “Uma História que não é contada”:

A nossa Civilização moderna, gerada no bojo do Cristianismo nos deu o milagre das ciências modernas, a saudável economia de livre mercado, a segurança das leis, a caridade como uma virtude, o esplendor da arte e da música, uma filosofia assentada na razão, a agricultura, a arquitetura, as universidades, as catedrais e muitos outros dons que nos fazem reconhecer em nossa Civilização a mais bela e poderosa Civilização da História.

O Dr. Thomas Woods, PhD de Harvard (2005) e muitos historiadores e pesquisadores como A.C. Crombie, David Lindberg, Edward Grant, Stanley Jaki, Thomas Goldstein, J. L. Heilbron, Rodney Stark, Kenneth Pennington, Daniel Rops e muitos outros mostraram a grande contribuição da Igreja para o desenvolvimento de nossa atual Civilização.

 

  • Diz o texto: “Outro exemplo muito claro desta injustiça contra o conhecimento científico e filosófico situa-se no campo religioso cristão. Não esqueçamos que a rebelião de Lutero e Calvino foi possível graças ao pensamento crítico; senão até hoje se acharia que as indulgências vendidas a preço de ouro garantiriam um pedaço de céu para a nossa alma. Leiam as 95 teses escritas por Lutero e afixadas na porta da catedral de Wittenberg, na Alemanha. Estudem!
    O professor Lutero questionava entre várias coisas a pregação sobre as indulgências feita pelo monge Tetzel que tinha como slogan: “Tão logo uma moeda na caixa cai, a alma do purgatório sai”. O dinheiro arrecadado ia ser utilizado na construção da Capela Sistina, em Roma. A história posterior já conhecemos. Lutero é excomungado da Igreja Católica e assim se inicia o movimento da Reforma Protestante que rompeu mais uma vez unidade da Igreja Católica e dividiu a Europa entre países católicos e países protestantes, sem antes passar por tantas guerras de religião.”.

O autor que critica a Inquisição Católica não faz nenhuma menção à “Inquisição Protestante”. Pelo contrário, por meio das ações do apóstata-mor Martinho Lutero, legitima o maior cisma já ocorrido na História da Igreja e se esquece de que é nos Concílios, sob a inspiração do Espírito Santo, onde são deliberadas as questões doutrinárias da Igreja. Aliás, ao longo da História ocorreram 21 Concílios.

Apenas para ajudar o professor acerca do tema:

A mesma convicção e concordância [a respeito da mentalidade medieval] se encontrou entre os protestantes. A reforma protestante é uma história de guerras e execuções de católicos por toda Europa. Lutero, Melanchton, Calvino e Henrique VIII decretaram a pena de morte para os ‘hereges’ católicos. Calvino mandou queimar os católicos e recebeu aprovação de Lutero.

Os reformadores usaram a ‘Inquisição Protestante’ de forma diferente da usada pela Igreja Católica; não havia necessidade de defender uma ordem existente, de salvar a religião ou proteger a cultura. A perseguição à fé católica era o meio de propagar as próprias inovações. Desde o início imitaram os muçulmanos, difundindo suas ‘doutrinas’ pela pressão e até pela fraude, auxiliados pelos reis protestantes; perceberam que somente pelos discursos não conseguiriam persuadir os católicos.” (Joseph Bernard – “Inquisição: história, mito e verdade” – página 13).

 

  • Diz o texto: “Gostaria de sugerir aos jovens, principalmente aqueles que frequentam as comunidades e paróquias e estão nesse bloco de inquisidores e divulgadores de mentiras e falsidades, perseguindo nossos professores: estudem. A história sempre será a porta da verdade demonstrando como esse caminho que vocês trilham é obscuro. Sim. A maior doutrinação que está ocorrendo entre vocês é essa crença veiculada pelos interesses econômicos e políticos, achando que nós professores temos tanto poder assim para impor sobre vocês qualquer doutrina.”.

Em face das objeções apresentadas nessa resposta, seria uma atitude nobre do estimado autor estudar, pelo menos, as obras aqui sugeridas e reconsiderar sua indelicada afirmação em relação à divulgação de “mentiras e falsidades” por parte de “jovens, principalmente aqueles que frequentam as comunidades e paróquias e estão nesse bloco de inquisidores“.

 

  • Diz o texto: “Fui professor durante 35 anos, e isso que estão falando sobre nós é o maior erro e equívoco no caminho da verdade. O que estão incutindo entre vocês, isso sim é doutrinação. A universidade é um campo, por excelência, plural e instável. Nenhum poder pode sobrepor ou se impor ao caminho do estudo científico e filosófico. Caminhemos em direção ao sol, em direção à luz da razão. Ainda é preciso estudar a filosofia crítica de Kant, Rousseau, Voltaire, Montesquieu, etc., do iluminismo que defendia a liberdade, a igualdade e a fraternidade. A modernidade chegou tardiamente ao Brasil. Doutrinação é esse caminho para o obscurantismo onde a razão é deixada ausente.”.

Resta óbvio que apenas quem participa ou coaduna com o processo de doutrinação marxista sentir-se-ia tão incomodado com a pressão contrária da sociedade.

Utilizando-se da falácia do argumento de autoridade (argumentum ad verecundiam ou argumentum magister dixit), o caro professor recorre a seus 35 anos de magistério para legitimar sua posição repleta de erros. Para refutá-los, os fatos e as provas históricas e documentais são inúmeros e alguns foram aqui apresentados.

Ao finalizar seu artigo, o autor comete mais um gravíssimo erro, louvando filósofos modernos que, dentre outros males, amalgamaram o pensamento que culminou na barbárie iluminista-liberal da Revolução Francesa.

É estupefaciente que o professor releve a perseguição ao catolicismo levada a cabo nesse período negro da história mundial e que se intensifica, e se mantém nos dias atuais, por meio do materialismo ateu. Vejamos o que dizem os fatos:

Baigent e Leigh (2005), críticos severos da Igreja, afirmam que: ‘No fim do século XVIII a Revolução Francesa exterminou cerca de 17.000 padres e duas vezes esse número de freiras, destruíra ou confiscara prédios e terras da Igreja, saqueara seus tesouros […]. Cauly (1914) afirma que ‘na Inquisição jacobina, durante a Revolução Francesa, segundo estatísticas sérias, em Paris e nas grandes cidades em seis anos foram executadas mais de 30.000 pessoas, muito mais do que a Inquisição na Espanha em seis séculos’. Por que não se fala dessa inquisição?

Nosso século não tem a mínima autoridade moral para condenar a Idade Média e a Inquisição; pois mesmo nos seus piores momentos, ela não pode ser comparada com os horrores dos regimes totalitários do século XX: a Primeira Guerra mundial matou cerca de 16 milhões de pessoas; a Segunda fez 50 milhões de vítimas; o nazismo assassinou 6 milhões de judeus e o comunismo ateu levou à morte milhões. Segundo o historiador francês Stéphane Courtois e seus cinco colaboradores, o comunismo matou cerca de 100 milhões de pessoas.

O nazismo foi execrado da vida social e política moderna, mas o comunismo genocida, além de valorizado, passou a ser popularizado por meio de um marketing bem feito e pela conversão de assassinos em heróis. Uma sociedade que faz com que carrascos se tornem exemplos para a juventude, mostra nitidamente a sua decadência moral, ética e espiritual. Faz-se hoje um malabarismo teórico para tentar justificar mortes em série e extermínios em massa, o que mostra a cegueira ideológica da modernidade. Na verdade, o mundo ocidental não se importa com a verdade e está mergulhado no relativismo moral e religioso.” (Prof. Felipe Aquino “Para entender a Inquisição” – página 272).

Resumindo: o pensamento liberal leva ao individualismo, representado pelo modernismo iluminista e pelo protestantismo, que rompem com a Tradição da Cristandade Medieval, e seu resultado é a sequência de Revoluções deletérias (Francesa e Bolchevique) e suas decorrentes formas de governo iníquas (Nazismo, Fascismo, Socialismo e Comunismo), observadas ao longo dos tempos, e que perseguem a Igreja de Cristo, instituída sobre Pedro.

 

Conclusão

Finalizamos esta resposta, apresentando trechos de duas Encíclicas Papais que demonstram que os maiores erros da modernidade são as bases mesmas do argumento apresentado pelo professor.

Iniciemos com a Encíclica Pascendi Dominici Gregis, de 1907, de São Pio X. Aqui uma crítica ao modernista reformador, diretamente ligado ao protestantismo, e que parece ser absolvido pelo autor do artigo analisado.

[…] Querem a inovação da filosofia, particularmente nos seminários; de tal sorte que, desterrada a filosofia dos escolásticos para a história da filosofia, entre os sistemas já obsoletos, seja ensinada aos moços a moderna filosofia, que é a única verdadeira correspondente aos nossos tempos. Para a reforma da teologia, querem que aquela teologia que chamamos racional, seja fundamentada na filosofia moderna. Desejam, além disto, que a teologia positiva se baseie na história dos dogmas. Querem também que a história seja escrita e ensinada pelos seus métodos e com preceitos novos. Dizem que os dogmas e a sua evolução devem entrar em acordo com a ciência e a história. Para o catecismo, exigem que nos livros de catequese se introduzam só aqueles dogmas, que tiverem sido reformados e estiverem ao alcance da inteligência do vulgo. […] Gritam a altas vozes que o regime eclesiástico deve ser renovado em todos os sentidos, mas especialmente na disciplina e no dogma. Por isto, dizem que por dentro e por fora se deve entrar em acordo com a consciência moderna, que se acha de todo inclinada para a democracia; e assim também dizem que o clero inferior e o laicato devem tomar parte no governo, que deve ser descentralizado. Também devem ser transformadas as Congregações romanas, e antes de todas, as do Santo Ofício e do Índice. Deve mudar-se a atitude da autoridade eclesiástica nas questões políticas e sociais, de tal sorte que não se intrometa nas disposições civis, mas procure amoldar-se a elas, para penetrá-las no seu espírito. […] Finalmente não falta entre eles quem, obedecendo muito de boa mente aos acenos dos seus mestres protestantes, até deseje ver suprimido do sacerdócio o sacro celibato. Que restará, pois, de intacto na Igreja, que não deva por eles ou segundo os seus princípios ser reformado?”.

Na mesma Encíclica, o Santo Papa visa a dar os remédios às ideologias contrárias a fé no meio católico. A partir de tão clarividente trecho, podemos suspeitar o que pode ter levado o estimado professor a defender ideias que ferem de morte a Doutrina da Igreja.

“II. Em vista tanto destas Nossas disposições como da do Nosso Antecessor [Leão XIII], convém prestar muita atenção toda vez que se tratar da escolha dos diretores e professores tanto dos seminários quanto das Universidades católicas. Todo aquele que tiver tendências modernistas, seja ele quem for, deve ser afastado quer dos cargos quer do magistério; e se já tiver de posse, cumpre ser removido.

Faça-se o mesmo com aqueles que, às ocultas ou às claras, favorecerem o modernismo, louvando os modernistas, ou atenuando-lhes a culpa, ou criticando a escolástica, os Santos Padres, o magistério eclesiástico, ou negando obediência a quem quer que se ache em exercício do poder eclesiástico […].”.

Finalizemos com a Encíclica Spe Salvi do Papa Emérito Bento XVI, publicada 100 anos depois (2007) da Pascendi Dominici Gregis de São Pio X:

20. […] Depois da revolução burguesa [Francesa] de 1789, tinha chegado a hora para uma nova revolução: a proletária. O progresso não podia limitar-se a avançar de forma linear e com pequenos passos. Urgia o salto revolucionário. Karl Marx recolheu este apelo do momento e, com vigor de linguagem e de pensamento, procurou iniciar este novo passo grande e, como supunha, definitivo da história rumo à salvação, rumo àquilo que Kant tinha qualificado como o ‘reino de Deus’. Tendo-se diluída a verdade do além, tratar-se-ia agora de estabelecer a verdade de aquém. A crítica do céu transforma-se na crítica da terra, a crítica da teologia na crítica da política. O progresso rumo ao melhor, rumo ao mundo definitivamente bom, já não vem simplesmente da ciência, mas da política – de uma política pensada cientificamente, que sabe reconhecer a estrutura da história e da sociedade, indicando assim a estrada da revolução, da mudança de todas as coisas. Com pontual precisão, embora de forma unilateralmente parcial, Marx descreveu a situação do seu tempo e ilustrou, com grande capacidade analítica, as vias para a revolução. E não só teoricamente, pois com o partido comunista, nascido do manifesto comunista de 1848, também a iniciou concretamente. A sua promessa, graças à agudeza das análises e à clara indicação dos instrumentos para a mudança radical, fascinou e não cessa de fascinar ainda hoje. E a revolução deu-se, depois, na forma mais radical na Rússia.

21. […] Marx não falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo; com efeito, já não deveria haver mais necessidade deles. O facto de não dizer nada sobre isso é lógica consequência da sua perspectiva. O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo[…]

23. […] Se o progresso, para ser digno deste nome necessita do crescimento moral da humanidade, então a razão do poder e do fazer deve de igual modo urgentemente ser integrada mediante a abertura da razão às forças salvíficas da fé, ao discernimento entre o bem e o mal. Somente assim é que se torna uma razão verdadeiramente humana. Torna-se humana apenas se for capaz de indicar o caminho à vontade, e só é capaz disso se olhar para além de si própria. […] Digamos isto de uma forma mais simples: o homem tem necessidade de Deus; de contrário, fica privado de esperança. […] Portanto, não há dúvida de que um ‘reino de Deus’ realizado sem Deus – e por conseguinte um reino somente do homem – resolve-se inevitavelmente no ‘fim perverso’ de todas as coisas, descrito por Kant: já o vimos e vemo-lo sempre de novo. De igual modo, também não há dúvida de que, para Deus entrar verdadeiramente nas realidades humanas, não basta ser pensado por nós, requer-se que Ele mesmo venha ao nosso encontro e nos fale. Por isso, a razão necessita da fé para chegar a ser totalmente ela própria: razão e fé precisam uma da outra para realizar a sua verdadeira natureza e missão.”.

Recomendamos ao autor e aos leitores dessas linhas, além dos livros e documentos citados, a leitura da obra “Maquiavel Pedagogo”, de Pascal Bernardin, para entender como e por que chegamos a esse ponto de doutrinação marxista explícita em nossas escolas e universidades, por mais que o artigo em análise queira convencer-nos do contrário. O posicionamento mesmo do professor, o qual se pode deduzir a partir dessa resposta, apenas ratifica a realidade que se impõe em nossa sociedade.

Cabe, pois, ao leitor católico honesto escolher: a Sã Doutrina Católica, com as Sagradas Escrituras, Tradição, Santos e Doutores da Igreja, ou a “modernidade que chegou tardiamente ao Brasil”, defendida pelo nobre professor?

Que a Santíssima Virgem Maria interceda por nós junto a Nosso Senhor Jesus Cristo!

Viva Cristo Rei!

 

[1] Recomendamos ao professor e ao leitor os seguintes livros:
– GADOTTI, M. Perspectivas atuais da educação. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 2000. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/spp/v14n2/9782.pdf

– NOGUEIRA, M.A. Educação, saber, produção em Marx e Engels. São Paulo: Cortez, 1990.

– REBOUL, O. A doutrinação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1980.

[2] http://www.cnbb.org.br/igreja-e-marxismo/

[3] http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/ce/audiencias-publicas-1/apresentacoes/apresentacao-braulio-porto

[4] https://noticias.gospelmais.com.br/pesquisa-85-professores-historia-esquerda-97713.html

[5] https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/a-desproporcao-entre-esquerda-e-direita-no-acervo-das-universidades-publicas-8v6lu5iximxewnrxfbz3qphn7/

Somos uma iniciativa de fiéis católicos que, tendo como modelo São José de Anchieta, visa promover a cultura católica nos mais variados âmbitos da vida do homem, especialmente por meio de uma sólida formação intelectual e espiritual voltada para a busca da santidade conforme a radicalidade do evangelho e a índole da Santa Igreja.

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