Trabalho: um meio de santificação

São Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei, escreveu em 1940:

“Cumprir a vontade de Deus no trabalho, contemplar a Deus no trabalho, trabalhar por amor a Deus e ao próximo, converter o trabalho em meio de apostolado, dar às coisas humanas um valor divino, esta é a unidade de vida, simples e forte, que devemos ter e ensinar”.1

  Eis o que diz o texto de Gênesis, Capítulo 3 (versículos 17, 19 e 23):

17. E disse em seguida ao homem: “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida.

19. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e ao pó te hás de tornar.”

23. O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden, para que ele cultivasse a terra donde tinha sido tirado.

Após o pecado original, apesar de co-natural ao homem, o trabalho é para ele um fardo penoso. Como todos pecamos, o homem agora tem deleite pelas coisas baixas. “Com efeito, todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus.” (Rm 3,23).

Como disse Cristo: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Mt 26,41). As virtudes são algo a se conquistar.

Sabendo que existe a virtude da laboriosidade, que se refere ao trabalho, temos uma oportunidade para fazer uma grande ascese cristã e com isso controlar nossos desejos contrários à Graça.

Jesus Cristo nos salvou com trabalho árduo: Ele suportou todos os açoites e cusparadas, teve uma coroa de espinhos, levou o lenho pesado da cruz e ainda foi crucificado por nosso amor.

E o trabalho redentor de Cristo tem essa principal conotação: o amor, e amor com amor se paga. O nosso trabalho diário tem que estar permeado desse amor.

Foi a obra redentora de Cristo que nos salvou. Nenhum cristão duvida disso, pois

“Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos.” (At 4,12).

E é justamente isso: as obras do homem devem estar unidas à Obra Redentora de Cristo:

“Porque é gratuitamente que fostes salvos mediante a fé. Isto não provém de vossos méritos, mas é puro dom de Deus. Não provém das obras, para que ninguém se glorie. Somos obra sua, criados em Jesus Cristo para as boas ações, que Deus de antemão preparou para que nós as praticássemos.” (Ef 2,8-10).

No sentido corrente, “redenção” ou “resgate” é o ato pelo qual se adquire novamente, pagando-se o preço devido, o que se possuía anteriormente e que não se possui mais. Assim é o resgate de uma casa, de uma propriedade. Como também dos cativos ou dos prisioneiros de guerra.

Pode-se então definir a redenção do gênero humano como o ato pelo qual o Salvador, pelo preço de seu Sangue, expressão do seu amor, livrou-nos da servidão do pecado e do demônio e nos reconciliou com Deus. Em outros termos, segundo expressões caras a Santo Anselmo e Santo Tomás, Ele satisfez pelos pecados da humanidade, pagou a dívida à justiça divina e mereceu a todos a salvação.

O trabalho como realização de nossas vocações é um meio de redenção quando este é feito pela fé, uma vez que Jesus Cristo por sua morte e ressurreição dignou-Se a salvar toda a humanidade.

Quando se fala em redenção, isso se refere ao homem em sua totalidade: mente, alma e corpo. O trabalho tem que abarcar toda esta realidade. Mens sana in corpore sano (“uma mente sã num corpo são”) é uma famosa citação latina, derivada da Sátira X do poeta romano Juvenal. O trabalho mental deve por excelência ocupar a maior parte de nosso labor, mesmo quando aplicado a um profissional que utiliza a força física como ofício. Antes de realizar qualquer trabalho braçal, deve: pensar como vai ficar o serviço, definir quais ferramentas serão utilizadas e quais prioridades considerará até finalizá-lo (por exemplo: além de diminuir o tempo para realizar o trabalho, exercitará a mente e o espírito).

Todas as nossas atividades devem ser iniciadas com, pelo menos, uma breve oração e durante o exercício do labor a mentalização da presença de Deus nos ajuda a aperfeiçoar a obra e a nos santificar, pois realizamos tudo por amor e para a Maior Glória de Nosso Senhor.

(1) Carta, 11 de março de 1940.

Gilberto Cavalcante é professor, formado em Teologia, Pedagogia e docência do ensino superior. Fundador da Biblioteca Santo Tomás de Aquino. Casado com Ana Márcia e pai de Maria Clara e Giovanna.

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